SAUDADE DO MARÇAL
Em 1972 tive o privilégio e a rara felicidade de conhecer o advogado, criminalista, professor, poeta, músico, orador inflamado - algumas de suas facetas e exemplos de marcante personalidade - uma das grandes inteligências do século XX.
Seu coração era generoso, magnânimo. Ajudava a todos, com prazer, presteza e profundo afeto. Não direi que fosse solitário, mas desesperava-se em momentos de melancolia, de nostálgico pensar.
Boêmio inveterado, apaixonado pelo viver e pela noite sombria (triste e melancólica noite de estrelas, doce e orvalhada noite!), esqueceu-se da saúde e partiu prematuramente. Deixando amarguras e amores, foi ao encontro do Amor Maior. Desligou-se do mundo para alcançar a bem-aventurança e a Eternidade.
Tinha muitos grupos de amigos, e um desses grupos era assim formado: Ildeu, Leitinho, Robério e eu. Sempre dele nos lembramos, com um misto de mágoa e profundo sentimento, mágoa da partida e sentimento de recordações.
Encontrávamos em seu sítio, quando revelava amplamente a sua face seresteira, de violonista, declamante de poemas, entoador das mais lindas canções.
Lembramo-nos, a propósito, de Drummond: "Que cavaleiro andará por aí, na noite, sobraçando petições e estrofes, brigando com os ventos, defensor quixotesco do direito dos pobres? A um clarão reconheço-o". É Marçal, é o poeta, é o homem, é a saudade dele entre nós...
*ALFREDO CAMPOS PIMENTA
FANTÁSTICO 1991
Em dezembro de 1991 foi ao ar no programa Fantástico da TV Globo um episódio da série "Casos sobrenaturais", dirigido por Augusto César Vannucci, com participação de Lafayette Galvão, cujo tema era um relato do advogado Marçal Etienne Arreguy a respeito de um evento inexplicável ocorrido com ele no início da sua vida profissional.
Recém-formado em Direito em Belo Horizonte, Marçal havia escolhido a promissora comarca de Caldas, no sul de Minas, para começar sua carreira advocatícia. Era o ano de 1960 e um belo dia chegou em seu escritório um sujeito da cidade próxima de Passos, que dizia ter cometido um assassinato, ao dar um tiro em um certo Fulano de Tal, que morava no sítio vizinho, por conta de uma briga por terras.
O sujeito deu todos os detalhes dos fatos, alegou legítima defesa e pediu ao Dr. Marçal que o defendesse. A reconstituição deste acontecimento foi encenada na televisão com o ator Tadeu Aguiar no papel do jovem Marçal, que se dirige a Passos para tomar as devidas providências jurídicas. Entretanto, para sua grande surpresa, ninguém lá conhecia o caso, nem o delegado, nem o promotor. Ninguém sabia informar nada.
Nenhum morador de Passos soube dar qualquer pista do ocorrido com um tal sujeito que matou e um fulano que morreu, ou de qualquer caso recente de disputa por terras que tivesse terminado em morte.
Sentindo-se perdido e enganado, vítima talvez de uma brincadeira de mau gosto ou coisa parecida, antes de desistir do caso e voltar para Caldas, Marçal resolveu procurar o coletor estadual da cidade, um conhecido do Dr. Saulo Etienne Arreguy, seu pai, que também era coletor estadual, para ver se conseguia alguma ajuda ou qualquer referência sobre o caso.
O velho coletor, que conhecia bem as histórias de Passos, verificou os dados fornecidos pelo cliente e resolveu investigar, pedindo ao Dr. Marçal que voltasse no dia seguinte. E a descoberta feita pelo coletor, conforme uma pesquisa nos arquivos do fórum da cidade, trouxe ainda mais perplexidade.
Todos os fatos narrados pelo sujeito eram verdadeiros; a briga por terras, o assassinato do fulano, tudo exatamente como havia sido descrito. Só que isso tinha acontecido em Passos no ano de 1860, a 100 anos atrás!
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